quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Enterro da Bicicleta - Nélson Saúte

Esse conto é de origem Moçambicana, contado por Nélson Saúte professor e jornalista nascido em 1967,em Lourenço Marques(hoje Maputo).Com vocês ...O ENTERRO DA BICICLETA

A aldeia foi sacudida com a notícia de morte do deputado.Todas as mortes são notícia em nossa terra,mas aquela foi invulgar.A consternação colheu também as aldeias mais próximas.Sem dúvida que aquele acontecimento para se escrever nos armoriais da povoação em que ele era a única personalidade carismática.Não era a primeira vez que empreendia aquela viagem de bicicleta até a vila,onde apanhava o Machimbombo(ônibus) que o levava ao distrito e, de lá,para a capital da província,de onde saía um boeing para a capital do país, onde se situava o parlamento.Nenhum dos habitantes daquelas terras alguma vez ouvira falar de leões.Falava-se,sim, de crocodilos que,não raro,devoravam crianças desprevenidas que tentavam atravessar para a margem adversa do rio.Contava-se inclusive uma história de uma mãe que velou a cabeça do filho,dado que o corpo fora engolido por um crocodilo no rio.Aquele leão foi o primeiro de que se ouviu falar e, provavelmente,ouvir-se a falar por muitos anos.Parece que o deputado ainda revelou alguma bravura quando se confrontou com a situação.Não fugiu,olhou frontalmente o animal,sem medo da sua juba e dos seus rugidos.Mas não estavam em igualdade de circunstâncias:as forças e armas eram tremendamente desiguais.O leão levou a melhor,tanto mais que do homem apenas restou uma bicicleta retorcida e alguns farrapos da sua roupa.Aldeia parou durante dias para os seus funerais.
Quando o deputado seguia para a capital,a aldeia parava para saudá-lo.Formavam-se duas filas longas por onde ele passava saudando seus eleitores.Ninguém poderia duvidar :estava ali uma figura da aldeia,talvez a maior.O homem era conhecido por possuir uma extensa biografia,mas sobretudo sublinhava-se a sua passagem heroica pela luta armada.Era um home predestinado indubitavelmente:não teve infância como as outras,cedo os seus ombros carregaram a pátria.Não se falava,como os outros meninos,de uma pueril passagem pela profissão de pastor de gado.Fora professor,isso sim,dizia-se com ênfase,uma profissão nobre.Cedo havia que se envolver em atividades políticas.Teve que abandonar sua aldeia e rumar a Norte,para juntar-se a luta.Regressou com a  independência e não quis experimentar a vida da grande cidade,retornou a sua aldeia por que acreditava que era um homem do campo e lá tinha uma missão.
na aldeia onde vivia o deputado não havia um único automóvel.Por aquela rua,a única,de poeira e sem árvores,por vezes passavam bicicletas.Era uma rua sem o sobressalto dos motores apenas com crianças que brincavam debaixo do sol quando não tinham aulas...O regresso do deputado era motivo de festa na aldeia,mas também de frenesim.
O homem,depois dos cumprimentos da aldeia,dirigia-se a casa,onde banhava-se com um balde de água quente,e comia a comida preparada por sua esposa ,enquanto os filhos não o largavam.mais tarde reunia-se com as personalidades da aldeia e fazia uma longa banja(fala,encontro)contando episódios da viagem,pessoas com as quais falara,contatos com altos dirigentes do partido e repetia fielmente os discursos feitos na tribuna.O homem era o orgulho daquela remota aldeia que vivia das machambas (lavras,pequenas propriedades cultivadas),de algum gado ,mais do que nada.a água escasseava,mas havia um rio não muito longe ,onde as mulheres iam buscar água.Havia ali um posto sanitário,muito precário onde a velha parteira atendia a todo tipo de doentes.a árvore mais frondosa tinha uma gigantesca copa que fazia uma sombra enorme,capaz de albergar todas as crianças que aprendiam acocoradas.Era uma aldeia pobre,mas seus habitantes eram felizes.No dia em que foi conhecida a notícia da morte do deputado,os miúdos não tiveram aulas,as mamanas(mulheres mais velhas)regressaram cedo da machamba,os homens se reuniram na casa do mais velho dos aldeãos.A aldeia ficou coberta de tristeza e desolação.depois de muita especulação ,as notícias não eram animadoras.Só havia a bicicleta para testemunhar a violência da refrega.Mesmo a bicicleta,havia quem asseverasse,já vinha muito desfigurada.A peleja tinha sido de meter medo.Mas tinha que haver um funeral,porém não havia corpo para enterrar.O mais velho por vezes rompia se silêncio proverbial e falava olhando para a imensidão do céu:
- A alma do morto só descansa quando enterramos seu corpo.
Depois de muita discussão ficou decidido :seria sepultada a bicicleta,far-se-ia uma urna,que seria velada e enterrada como se do próprio dono se tratasse.
-Só assim a alma do homem descansará.
Ninguém se opôs e pareceu que a ideia era mesmo brilhante.Nenhum pormenor escapou.Havia duas bandeiras na aldeia.Uma por estrear,que viera com o administrador do distrito e fora guardada para ocasiões solenes;a outra estava rota.Ambas foram postas a meia haste.A urna impunha num estrado pequeno.Os convidados tinham lugar sentados assim como as autoridades.A viúva e os nove filhos estavam sentados na primeira fila .O velório tinha sido marcado para as primeiras horas,o sol foi célere a atingir o rosto dos presentes.As mulheres cantavam.O chefe do partido fez o elogio fúnebre e seguiram-se as mensagens.O cortejo percorreu o trajeto indicado,os cantos e os acenos dos que se despediam do deputado são inesquecíveis.Chegados ao cemitério houve mais elogios antes de a urna descer a terra.
No final,houve uma lavagem de mão,em casa do defunto.A cerimônia do chá tinha muita gente e aí as conversas,nos círculos dos homens,já denunciavam que havia alguma descontração.De repente,surgiu um burburinho e começaram a juntar-se pessoas.Chegara,não muito tempo antes ,um mensageiro.O homem fizera tudo para chegar antes dos funerais da defunta bicicleta.Porém,houve percalços que o atrasaram pelo caminho.A sua volta estavam apenas os homens que haviam comparecido aquele último ritual de despedida do deputado.As mulheres mantinham-se a parte.O mensageiro caiu fatigado,sempre com a língua de fora.Ainda tentaram reanimá-lo.estava morto antes de revelar o que lhe trouxera de tão longe...

Assim contou Nélson Saúte no livro Contos Africanos dos Países de Língua Portuguesa.FNDE

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